Em Muniz Freire (ES), a política local ultrapassa os limites do razoável e mergulha fundo no terreno do folclore — onde personagens caricatos ganham papel de destaque e servem como espelho perfeito da tragicomédia institucional que a cidade vive. Entre essas figuras, ninguém se sobressai tanto quanto um sujeito conhecido por seu estilo hilário, sua verborragia escancarada e, ultimamente, sua súbita — e suspeita — mudez.
Falamos de um ex-candidato a vereador que, nas últimas eleições, colecionou não votos, mas constrangimento. Sua votação foi tão pífia que virou anedota nas esquinas da cidade — menos para ele. Após a derrota nas urnas, o personagem, como tantos que não aceitam o gosto do fracasso, partiu em busca de uma boquinha na Prefeitura. Afinal, se o povo não quis, talvez o poder quisesse.
E assim bateu na porta do recém-eleito prefeito Dito Silva (PSB) — o rei das promessas não cumpridas. Com a lábia afiada de quem vive da política sem jamais tê-la exercido com seriedade, Dito acenou, sorriu, garantiu espaço e… nada. Prometeu como quem entrega, mas segurou como quem controla. Como sempre faz.
A frustração do personagem virou conteúdo. Sua revolta, combustível. E logo começaram a circular vídeos hilários — e cáusticos — nos quais ele desancava a gestão de Dito Silva com ironia, escárnio e pitadas de uma verdade incômoda. Falava da inércia, da omissão, do marasmo administrativo. Tornou-se, por breves dias, a voz do povo cansado. A população ria, aplaudia, compartilhava. E o sistema… tremia.
Mas, como em toda comédia política em Muniz Freire, o roteiro tinha um plot twist previsível. A companheira do personagem — que também havia sido exonerada no início do ano, numa das muitas faxinas seletivas promovidas pelas “abelhas-rainhas” do gabinete — reapareceu, como num passe de mágica, nomeada de volta em cargo comissionado. Coincidência? Claro que não. A prova é documental. Contra isso não há argumentos.
O retorno dela selou um novo silêncio. De crítico impiedoso, o personagem virou papagaio domesticado. Trocaram-lhe a indignação por um contracheque. E, desde então, seus vídeos ganharam novo tom: agora tudo é maravilha, Dito é um estadista, a cidade avança e a gestão virou exemplo — mas só numa realidade paralela. No mundo real, segue o abandono.
A manobra não passou despercebida. Todos na cidade sabem. Todos comentam. Todos entendem que, em Muniz Freire, a moeda de troca não é apenas o voto, mas também o silêncio. E que as tais abelhas-rainhas — as irmãs do prefeito, onipresentes nos bastidores — são especialistas em calar bocas com cargos. Enxergam mais do que o próprio Dito, mandam mais que muito secretário e definem quem pode latir e quem deve lamber.
O personagem hilário, que por alguns momentos divertiu e criticou com coragem, se rendeu. Agora é só mais um figurante no teatro do absurdo que virou a política municipal. Vendeu a voz por conveniência. Comprou o silêncio com subserviência. E esqueceu que, um dia, chegou a provocar gargalhadas sinceras — hoje, só arranca sorrisos amarelos.
A história de Muniz Freire segue sendo escrita por personagens assim: derrotados que se dizem representantes do povo, prefeitos que prometem mundos e fundos e entregam cargos e silêncio, e bastidores comandados por abelhas que, embora não apareçam em público, têm a chave da colmeia, do cofre e do controle.
E o povo? Assiste. Ri. E espera. Espera que, um dia, o riso volte a ser legítimo. Não comprado.
Porque hoje, em Muniz Freire, até a palhaçada tem preço. E não é barato — custa um cargo, uma vergonha engolida e uma consciência enterrada sob o peso de um CC-2.
Enquanto isso, o personagem hilário — outrora bufão do povo — virou animador de plateia do palácio do faz de conta. Agora aplaude até buraco na rua, elogia ausência de obra como se fosse estratégia de gestão e enxerga progresso onde só há poeira e promessas. Está feliz: virou figurante da própria piada.
E Dito Silva (PSB)? Ah, Dito segue sorrindo. Não por competência, mas porque aprendeu que, em Muniz Freire, o poder não se mede por entrega, e sim por silêncio comprado. É o prefeito do nada, cercado por tudo o que não presta: bajuladores profissionais, secretários meramente decorativos e abelhas operárias do atraso.
Resta saber se, um dia, o povo vai se cansar dessa encenação burlesca. Ou se vai seguir calado — como o personagem hilário — à espera da próxima nomeação milagrosa. Resta saber, novamente, se o povo vai se cansar. Ou se vai seguir calado — como certos personagens que antes piavam alto e hoje cantam baixinho, como um passarinho domesticado que já foi livre, mas agora só canta quando o tratador manda.
Afinal, em Muniz Freire, a política não é feita com coragem, mas com recibo. E enquanto houver quem aceite, o show do cinismo continua: com aplausos comprados e risadas forçadas.
Dizem por aí que esse passarinho tem nome de ave alegre. Mas ultimamente anda mais pra bem-te-vendo do que bem-te-vi. Porque viu, criticou, gritou… e depois vendeu o próprio canto por um lugarzinho confortável no galho da árvore do poder.
E assim, Muniz Freire segue: governada por zumbidos, vozes compradas e silêncios ensaiados. Um teatro ao ar livre — onde o povo paga a conta, e os artistas nem disfarçam mais que a peça é de quinta.
Mas sigamos assistindo. E ouvindo. Quem sabe um dia o Bem-te-vi volte a cantar… sem coleira. Bem-te-vi? Que nada. Agora é só bem-te-serve… e pia, pia.





























































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