Muniz Freire (ES) — A cidade assiste, perplexa, a um episódio digno de regimes que abominam o contraditório. Segundo relatos, a filha do prefeito municipal, estudante de medicina, estaria enfrentando crises entéricas recorrentes, atribuídas a publicações críticas feitas por veículos independentes de imprensa. A reação? Acusações veladas, tentativas de coibir publicações e apelos emocionais que mais lembram estratégias de vitimização do que medidas públicas sérias. Inúmeros prints revelam isso.
Não é aceitável que a saúde emocional de parentes de gestores públicos seja utilizada como escudo contra a liberdade de expressão. A jovem, ao que tudo indica, não é figura pública — mas, convenhamos, também não é uma civil qualquer. Está no centro de um grupo que desfruta do poder e da exposição que o cargo do pai naturalmente traz. Em vez de buscar equilíbrio, os aliados do prefeito agora sugerem que qualquer crítica ao governo é “crueldade”.
Ora, se a filha do prefeito — que escolheu seguir uma carreira exigente como a medicina — não suporta o peso de manchetes, críticas ou questionamentos legítimos sobre a gestão pública, como lidará com a pressão de uma sala de emergência? Como exercerá sua profissão diante da dor real, concreta e intransferível do outro?
O que deveria ser um episódio pessoal e discreto está sendo usado como pretexto para insinuar censura e sufocar o contraditório. A imprensa, por sua vez, cumpre seu papel constitucional: fiscalizar o poder, questionar a conduta dos gestores e informar a população. Não é admissível que, em pleno século XXI, usem a fragilidade emocional de familiares como instrumento de chantagem política.
A situação se agrava quando se observa que, semanas atrás, o filho do prefeito — figura notória no cenário local — tentou agredir fisicamente um vereador nas imediações de um supermercado da cidade, em plena luz do dia, como se fosse o dono do município. O caso, presenciado por populares, escancarou o clima de intolerância e autoritarismo que tem se instalado ao redor do chefe do Executivo municipal.
Estamos, ao que tudo indica, diante de uma família que confunde o poder público com o quintal de casa, onde críticas viram ofensa pessoal, divergências são tratadas como ameaças e opositores como inimigos a serem silenciados — por palavras ou por punhos.
Muniz Freire não pertence a um clã. O poder é do povo e precisa ser exercido com respeito, maturidade e espírito republicano. Nenhuma dor de barriga justifica censura. Nenhum sobrenome justifica agressão. E nenhum mandato concede o direito de transformar adversários em alvos.
A cidade não pode ser refém de chantagens emocionais. A imprensa não é vilã por cumprir seu papel: questionar, investigar, denunciar. O que se configura aqui é uma tentativa grosseira de inverter papéis, vitimizar quem detém o poder e criminalizar quem ousa dizer o óbvio.
A democracia exige maturidade. Quem está no poder — e quem vive ao redor dele — precisa entender que críticas não são ofensas, e que liberdade de expressão não pode ser censurada por cólicas intestinais seletivas.
A democracia exige estômago — e caráter. Muniz Freire não é uma monarquia. E o povo não é súdito.





























































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